24 setembro 2008

Reportagem: Mercado de troca de casais vive ‘boom’ nos EUA



'Swing' movimenta milhões de dólares nos Estados Unidos. Uma única empresa costuma receber 900 casais nas suas convenções.


Matt Virtue, que trabalha como consultor num escritório de advocacia de Washington, conta que gasta mais de US$ 10 mil por ano para freqüentar convenções, hotéis e clubes onde ele e a namorada podem fazer sexo com outros parceiros.



Dois casais que participaram da convenção da maior organização de swing dos Estados Unidos (Foto: Adam Tanner/Reuters)

"Qualquer outro hobby que eu praticasse aos 40 anos custaria-me US$ 10 mil", disse ele dentro de uma banheira que dividia com a namorada e um casal com quem haviam tido relações na noite anterior. "Cara, sou viciado nisso, disso não há dúvidas".

Um entusiasmo como esse é responsável por transformar o que um dia eram paixões privadas num negócio multimilionário. A Lifestyles Organization, maior empresa se serviços de swing dos EUA, regista vendas anuais de cerca de US$ 15 milhões.

Os adeptos do swing, ou os swingers, também rendem milhões de dólares a clubes e hotéis especializados nos Estados Unidos, além de Jamaica, México, França e outros países.

"Trata-se de um estilo de vida, mas, na verdade, não deixa de ser um negócio", disse Robert McGinley, 73, presidente da Lifestyles Organization, durante sua convenção anual em Las Vegas, que recebe cerca de 900 casais.



Perfil
A Lifestyles Organization atende um público de classe média que deseja conhecer casais que fazem o mesmo estilo e que, em geral, querem ocultar suas paixões dos que chamam de "vanillas", ou "baunilhas" (casais convencionais).

As tentativas de conhecer casais que praticam o swing fora desses circuitos costumam ser frustradas, fazendo com que os organizadores de viagens, clubes e convenções especializados no ramo garantam um negócio estável.

Terri, 48, presente na convenção de Boise, Idaho, que preferiu não divulgar o sobrenome, contou que ela e o marido de 21 anos chegam a gastar US$ 8 mil por ano em diversas semanas dedicadas a férias e visitas a clubes de swing.

No evento deste ano, a Lifestyles Organization, sediada em Anaheim, na Califórnia, fechou um hotel inteiro próximo a Las Vegas e organizou seminários e festas para casais de meia idade.

Os mais exibicionistas do grupo reuniam-se em quartos abertos após a meia-noite para fazer sexo enquanto outros os observavam ou entravam para participar. Alguns casais conversavam trivialidades enquanto se "integravam", inclusive um homem que gabava-se por o seu filho estudar medicina.

"Na outra noite eu olhei e havia cinco ou seis pessoas observando", contou Terri, reformada da aeronáutica americana há dois anos. "Fico feliz porque estava apresentando um belo espetáculo".

"Foram três (amantes) nas últimas 24 horas".



Mercado
As principais empresas de pesquisa relacionada a sexo afirmam que não sabem qual é a quantidade de swingers nos Estados Unidos, então é difícil determinar qual a fatia de mercado que essa subcultura representa de um modo geral.

Rick Conner, swinger e autor de um livro de aconselhamento para esses casais, estima que existam 100 mil swingers americanos, dos quais 20 mil são bastante activos. Outros swingers sugerem que o número esteja na casa dos milhões.

"Favor não fazer sexo no restaurante"

Apesar do foco pouco convencional do congresso, McGinley enumera as principais preocupações de muitos empresários.

"Nos negócios há risco e você precisa decidir se o risco é ou não viável", disse ele. "No fundo há bastante planeamento e muita análise financeira de agora e do passado, além do estudo da conjuntura actual".

Segundo ele, os casais pagaram uma taxa de inscrição de US$ 690, dos quais US$ 200 cobriam os custos, resultando em um lucro total de mais de US$ 400 mil. Os custos de passagem aérea e hospedagem no hotel ficam por conta dos casais e não estão incluídos nesse valor.

A Lifestyles Organization já teve de lidar com alguns incidentes um tanto inusitados. Os funcionários da empresa tiveram de interromper um casal que fazia sexo dentro do restaurante Tuscany Suites.



Lucro
As convenções rendem à Lifestyles US$ 4 milhões em vendas anuais. Os serviços de viagens prestados pela empresa para hóspedes swingers em resorts como Hedonism II, na Jamaica, ou Desire, no México, rendem mais US$ 10 milhões a US$ 12 milhões ao ano, revelou McGinley.

"Nós atenuamos as nossas regras que já são liberais para atender a Lifestyles Organization e fazer com que a decisão de se vestir em todo o resort seja opcional", explicou Richard Bourke, gerente geral do Hedonism II.

Ele conta que a Lifestyles Organization reserva o equivalente a US$ 2 milhões em quartos por ano por seis semanas fechadas. Os funcionários do Hedonism II são proibidos de ter relações sexuais com os hóspedes e alguns foram demitidos por violar a regra, contou Bourke.

"Existem resorts com empresas de hotelaria de renome que estão aderindo a esse serviço", disse McGinley. "Eles não dão a mínima para o swing, mas sim para o dinheiro e somos nós que garantimos os clientes deles".

O Desire Resort and Spa em Los Cabos, no México, inaugurou em novembro com foco no mercado de swing. Cerca de metade dos hóspedes é formada por swingers activos, de acordo com Jesus Prado Leal, recepcionista.

Há centenas de clubes em todo o país que também atendem swingers. Jeff James, que trabalha para o Club Freedom Acres em San Bernardino County, a leste de Los Angeles, disse que cerca de 225 a 260 casais freqüentam o local numa típica noite de sábado, pagando US$ 85 cada, e o público da sexta-feira também é mais ou menos esse, com entradas custando US$ 65. "A freqüência diária duplicou nos últimos três anos", disse ele.

O swing também incentiva serviços complementares como cirurgias plásticas nos seios e remédios para disfunção erétil. "O Viagra com certeza faz parte do universo adulto", disse Deborah, esteticista e avó de 52 anos de Dallas, Texas, que preferiu não ter a identidade revelada. "Se antes eram quatro estrelas, agora são provavelmente cinco".

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